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CRÓNICA DO LÚCIO

 

 Por Lúcio Garcia

 

 

 

 

Onde para a Esquerda?

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 

No seguimento da Segunda Grande Guerra, duas famílias políticas foram de facto relevantes para a reconstrução política e económica do pós-guerra.

Os socialistas e sociais-democratas (*) de um lado e os democratas cristãos pelo outro. Estas forças políticas, tinham objetivos bem demarcados e ideologias fortes. Os seus líderes respeitavam-se e eram respeitados. Homens saídos de uma guerra, desejosos de paz e cheios de idealismo, reconstruíram uma Europa de paz e progresso.

 

 

 

Assentes numa economia Keynesiana, pelo menos até aos anos setenta, a Europa conheceu como nunca, momentos de grande prosperidade económica e social. A ação dos Paridos socialistas e social-democratas foi determinante para que a Europa democrática, nessa altura sem Portugal e Espanha, conhecesse a estabilidade dos mercados, e um forte incremento nas políticas sociais, principalmente nas áreas da saúde, da educação, do apoio aos mais carenciados, enfim num estado bem mais solidário

Segundo um dos maiores especialistas de “Keynes”, Robert Skidelsky no seu livro Keynes – O Regresso do Mestre, este faz uma comparação entre as eras Keynesiana e pós-Keynesiana.

Sintetizando o que escreve Robert Skidelsky, o primeiro período fica conhecido como o sistema Keynesiano de Bretton Woods, concebido para melhorar as práticas de uma economia liberal que crescera desregulada e ad hoc no final do século XIX e que caíra de forma dramática entre as duas guerras. Durou até aos anos setenta.

O período de Bretton Woods para comparação do pós-guerra, situa-se entre 1951 e 1970, e é conhecido pela Era Dourada. O sistema que lhe sucede, fica conhecido pelo sistema Novo Clássico do Consenso de Washington, que se estende do inicio dos anos 80 até à atualidade.

 

 

 

É neste período que é abandonado o compromisso com o pleno emprego e os controlos de capital são desmantelados, entre os anos 80 e 90. São os anos de poder de Margaret Thatcher e Ronald Reagan. Os resultados destas políticas monetaristas iniciadas nos anos 80, acreditando que os mercados se auto-regulariam, caíram por terra. Os seus resultados e consequências estão hoje bem à vista.

Num recente artigo publicado no “The New York Times”, Paul Krugman, Prémio de Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel escreve um artigo intitulado, “Keynes Tinha Razão”.

O artigo começa por uma frase do próprio Keynes onde o mesmo afirmava, em 1937: “ The boom, not the slump, is the right time for austerity at the treasury. Que em português significa: “ A altura certa para a austeridade nas finanças é em tempo de fartura, não de recessão.”

 

 

 

Cortar os gastos na recuperação da economia e aumentar a austeridade, só pode trazer mais austeridade. Isto parece-me claro como a água e de total bom senso.

Não compreendo esta gente que por aí apregoa a austeridade como um fim em si mesmo. As recentes notícias vêm dar cada vez mais razão a Keynes.

A própria Diretora do FMI, Cristine  Lagarde, veio a 24 de Janeiro último,  em publico dizer que : “os países da zona euro com mais "folga orçamental" devem "reconsiderar" as políticas de austeridade e promover políticas de crescimento tendo em conta o grande ajustamento já em curso este ano, os governos devem evitar (...) mais políticas de austeridade", lê-se numa atualização do "Fiscal Monitor" (publicação sobre políticas orçamentais) do Fundo.

Noutro documento publicado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) argumenta que "o desafio mais imediato" que se põe à economia global é "restaurar a confiança e acabar com a crise na zona euro através da promoção do crescimento" económico. "Tendo em conta o grande ajustamento já em curso este ano, os governos devem evitar (...) mais políticas de austeridade”.

 

 

 

Com a queda do Muro de Berlim, e o desmoronamento da União Soviética, os povos que durante anos se viram subjugados por estas ditaduras - Europa Central e de Leste -, cada vez mais se afastaram das ideias de esquerda e suas políticas.

Já anteriormente, em Itália, o Partido Comunista Italiano (PCI), se transformou em social-democrata (PDS) e posteriormente em Partido Democrata (PD).

O Partido Comunista Francês desapareceu de cena e os Partidos Socialistas e Sociais Democratas europeus sofreram uma deriva à direita com a chamada “Terceira Via” protagonizada por Tony Blair e que teve em Portugal por seu seguidor António Guterres.

A Globalização dos mercados, também não trouxe nada de bom à esquerda. Adormecida há anos e sem lideres fortes, a esquerda democrática europeia tem que se reerguer. É urgente que o faça.

O que se passa neste momento no Mundo e na Europa começa a tomar rumos dramáticos. O descontentamento na Europa começa a ganhar força e legitimamente, grupos de opinião começam a alastrar por vários países europeus.

 

 

Há, no entanto, que estar muito atento a estes movimentos, a maioria de ideais generosos e solidários e genuinamente democráticos, são, no entanto, frágeis pois não possuem uma direção conhecida, organizada, com caras que assumam a responsabilidade no controlo das massas e sem um Quartel-general”, sede de poder.

Os jovens são por natureza utópicos e, politicamente, generosos, mas olham mais para a frente do que para trás.

No entanto, seria bom que olhassem.

É lá que podem recolher as experiências e ensinamentos para se autodefenderem.  

Ao longo de milhares de anos, os homens não mudaram assim tanto no seu pensamento e as técnicas de persuasão e controle de massas não é muito diferente.

A história repete-se e o que é preciso é acrescentar algo mais de inovador às políticas que lhe imprimam maior democracia e solidariedade. De outra forma, outros mais experientes e não democráticos facilmente se introduzem e acabam por controlar as mesmas.

Estas experiências já foram vividas e praticadas em Portugal, em tempos bem recentes. Muitos dos jovens que hoje, vão para as ruas não viveram esses tempos e outros já os esqueceram.

 

 

 

A democracia não é um sistema perfeito, não existem sistemas perfeitos mas é o que nos dá mais garantias. Por tal, é preciso defendê-la a todo o custo.

É preciso estar atento aqueles que invocando a liberdade a toda a hora estão sedentos de a destruir, ou talvez impor a sua democracia, a que chamam democracia interna, a do partido único, que tudo controla a bem do Povo…. Uma das principais razões da derrota dos republicanos na Guerra Civil de Espanha, foi exatamente o assassínio de muitos dirigentes e militantes de esquerda pelos próprios camaradas, estes a soldo dos comunistas que queriam assumir o controlo a soldo de Estaline.

Notável, foi o discurso «A Alemanha na e com a Europa», de Helmut Schmidt, ex-chanceler, no Congresso ordinário do SPD, Berlim, a 4 de Dezembro de 2011.

 

 

 

Aconselho os leitores a lerem este discurso que poderão encontrar na internet aqui: http://jugular.blogs.sapo.pt/3036820.html

Eis algumas frases do discurso:

 

 

- Toda a conversa sobre uma suposta «crise do euro» é conversa fiada leviana dos média, de jornalistas e de políticos.

 

- Assistimos à ascensão fenomenal da China, da Índia, do Brasil e outros “estados emergentes”, que antigamente chamávamos “Terceiro Mundo”.

 

- Os actores nos mercados financeiros globalizados apropriaram-se de um poder, por enquanto, totalmente sem controlo.

 

- Desce a parte dos europeus no produto social global, isto é, na criação de riqueza de toda a humanidade. Até 2050 descerá até aos 10 pontos percentuais; em 1950 ainda representava 30por cento.

 

- Cada uma das nações europeias, em 2050, representará já só uma parte de um 1por cento da população mundial. Quer dizer: se queremos ter a esperança de nós europeus termos importância no mundo, então só a teremos em conjunto. Porque enquanto Estados separados, seja a França, Itália ou Alemanha ou Polónia, Holanda ou Dinamarca ou Grécia – só nos poderão contar em milésimos e não mais em números percentuais.

Daqui resulta o interesse estratégico a longo prazo dos estados europeus.

 

 

 

O discurso é um tratado da história recente e um apontar de caminhos para o futuro. Mais uma vez, não sei se as vozes mais jovens da esquerda democrática europeia se vão fazer começar a ouvir.

Não compreendo que ao fim de mais de 3 a 4 anos da crise implantada, a esquerda continue muda aos avanços que os mercados impõem à política e não a politica a controlar os mercados.

 Não compreendo as falinhas mansas da maioria dos partidos socialistas e dos seus líderes no combate à crise. Não compreendo que o PS português, não convoque os partidos da Internacional Socialista para um debate sério sobre o que deve ser hoje a esquerda na Europa, qual a resposta que deve ser dada aos novos desafios que se nos apresentam, com a modernidade, as novas tecnologias, o novo sentido que se pode dar ao emprego, etc.

Como atacar seriamente a crise que a todos nos afecta.

 

 

O tempo se encarregará de provar que as politicas da atual chancelar alemã, e do seu aliado francês estão erradas e que a sua prossecução levará ao desastre europeu, com todas as consequências do que daí pode advir.

O tempo urge e não se pode desculpar que a esquerda europeia não desperte. É urgente que a esquerda se reúna se necessário todos os dias até encontrar um consenso que conduza à solução da crise na Europa.

 

 

Esta é a sua principal obrigação no momento. O Partido Socialista português e António José Seguro como seu líder, têm a obrigação de contribuir de forma ativa para imprimir à política aquilo que se lhe impõe.

 A continuação da luta por um ideal mais fraterno, mais solidário e mais justo.

Um ideário que aponte caminhos para uma paz duradoura que se me afigura cada vez mais ameaçada.

Tendo sido eleito pela maioria dos seus correligionários, espero que esteja à altura dos tempos difíceis que atravessamos e que de uma vez por todas assuma a condução da oposição em Portugal, que tome as rédeas do discurso e das acções que melhorem a condução das políticas apresentando propostas fortes e credíveis, no combate ao desemprego, na defesa do trabalho, no apoio ás empresas, no combate à corrupção, nas reformas da segurança social, da saúde, da educação, da justiça e por aí fora.

É essa é a sua obrigação.

 

 

(*) Não confundir com os chamados sociais-democratas portugueses, que de sociais-democratas apenas têm o nome. O PSD português, nunca foi aceite no seio da família socialista europeia, assim como integra no Parlamento Europeu o PPE, dos Democratas Cristãos, ou seja a direita europeia, “chefiada” por Angela Merkel, responsável pelas politicas que nos têm levado ao desastre.

 

 

 

Fontes: Keynes – O regresso do Mestre de Robert Skidelsky -   O que resta da Esquerda de Franco Cazzola -   Discurso de Helmut Schmidt

 

 

 

 

 

 

 

 

(13-fev-12)

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