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PRAÇA DA LIBERDADE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Egito Gonçalves

(2001-2012):

Onze anos depois

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

José Manuel Tavares Rebelo

 

 

 

 

 

 

Amigo

Espero ser “isto” o que pretendia. Ficaria feliz se obtivesse resultados.

Abraço amigo do

Egito Gonçalves

Porto, Fevereiro de 2000

 

Era este o teor do bilhete que acompanhava uma folha com alguns dados biográficos que Egito redigira, a meu pedido, a fim de serem enviados ao Diretor Regional da Cultura (Açores).

“Isto” era o resumo de uma vida inteira dedicada à poesia, à cultura e à luta contra a opressão. “Isto” era uma tentativa, feita pela Casa dos Açores do Norte, deste homem ser recebido nos Açores, em Abril de 2000, próximo da data que restituíu a democracia a Portugal. “Ficaria feliz” se regressasse, por uma última vez, aos locais (agora tão diferentes) em que vivera durante dois anos da sua juventude. Não viu satisfeita esta sua vontade, por um qualquer motivo fútil. Aos 80 anos cheios de vida, faleceu em  28 de Janeiro de 2001.

 

 

Era um amigo da Casa dos Açores do Norte, tendo participado nalgumas das suas atividades, nomeadamente na Jornada Cultural “Açores, Anos 40 – Encontros, Recordações – Reflexão”, em 1991. Também, a nosso convite, fez a apresentação, na Livraria Lello, de “Relação de Bordo I”, de Cristóvão de Aguiar, em Março de 1999. Teve ainda a particular atenção de, nesse mesmo ano, assinar a proposta para sócio da APE ao poeta Ivo Machado, então associado da CAN.

“Tive a sorte de ser “expedido” para S. Miguel onde me foi dado conviver com alguns dos escritores de Ponta Delgada. Estive ali dois anos e, transitando pela cidade, ou enchendo os olhos pelas estradas de Nordeste aos Mosteiros, frequentando o “Bureau de Turismo” que me fornecia as últimas novidades em livros, eu ia crescendo...”[1] E Egito acrescentava: “sei quanto devo, na minha formação, aos dois anos que ali passei... trouxe dos Açores um acréscimo de cultura, o interesse por coisas que antes desconhecia, e os olhos cheios de uma paisagem inesquecível”[2].

 

Egito Gonçalves nasceu em Matosinhos, em 1920 e viveu na cidade do Porto desde 1948 até à sua morte. Começou a escrever poesia durante o serviço militar em Ponta Delgada e viu o seu primeiro texto publicado nas páginas do “Correio dos Açores”, em 1943, intitulado precisamente “Poema para os Companheiros da Ilha”.

Para além de ter desenvolvido preponderante ação política na oposição a Salazar e Caetano, pertenceu a diversas organizações culturais internacionais. Dedicou-se também à tradução de poesia, tendo obtido o Prémio de Tradução Calouste Gulbenkian, da Academia das Ciências de Lisboa (1977). Obteve ainda, com o seu livro “E no entanto move-se” (1995), o Prémio de Poesia do Pen Clube e o Grande Prémio de Poesia da APE. Em 1994 foi condecorado pelo Presidente da República com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

 

 

Além de ter sido incluído em numerosas antologias no país e estrangeiro, poemas seus foram traduzidos e publicados em jornais e revistas de mais de trinta países e livros em França, Espanha, Bulgária, Polónia, Estados Unidos, Turquia e Roménia.

Entre 1950 – Poema para os Companheiros da Ilha – e 1999 – A Ferida Amável, a sua obra poética estende-se por 26 volumes e 19 traduções ( entre as quais se contam livros de Pier Paolo Pasolini, Atila József e Edoardo Sanguineti).

 

 

Egito Gonçalves não parecia destinado a interesses literários. Frequentara estudos técnicos. Mas em plena guerra, veio parar à ilha de S. Miguel, onde esteve dois anos (1942/44) como rádio-telegrafista militar.

Em Ponta Delgada frequentava assiduamente o Bureau de Turismo Terra Nostra, no Largo da Matriz, onde comprava livros para os tempos de lazer e onde travou conhecimento com João da Silva Júnior, Armando Cortes-Rodrigues, Diogo Ivens, Ruy Galvão de Carvalho e outros.

Com eles fez amizade durante os seus dois anos de estada na ilha. Afirmava que os quatro nomeados foram para ele uma espécie de “padrinhos literários”, pondo à sua disposição as respetivas bibliotecas.

 

 

É por isso que dizia que eles foram – Ponta Delgada foi – a Universidade que não frequentou. A pouco e pouco se fez uma tertúlia, onde apareciam outros mais novos, como J.M. Camilo de Melo, Gustavo de Fraga, Virgínia Moreira e, mais tarde,  os mais jovens Eduíno de Jesus e Carlos Wallenstein. Começou a colaborar em jornais, teve uma polémica com Oliveira San-Bento a propósito de Stefan Zweig com base no alegado judaísmo deste último.

Por essa altura escreve o seu primeiro poema, muito influenciado pela leitura de “Poemas de Deus e do diabo”, de José Régio, que Cortes-Rodrigues lhe emprestara.

Esse poema, por intermédio de Silva Júnior, foi publicado no “Correio dos Açores!. Assim se iniciou – em Ponta Delgada – a sua carreira poética.

O primeiro livro que publicou, já no Continente, intitulava-se “Poema para os Companheiros da Ilha” e era uma homenagem a esses amigos e um produto da nostalgia da ilha, que nunca o abandonou.

 

 

Iniciou-se na crítica de cinema como crítico do Cine Jade (em Ponta Delgada). Por tudo isso trouxe de S. Miguel uma bagagem cultural e literária que lhe permitiu abrir outras portas, correr outros caminhos. Egito disse um dia: “sempre uma incógnita insolúvel me perturbou: se os acasos da sorte não me tivessem levado para Ponta Delgada, o que teria sido? Como poderia a literatura ter surgido, se surgisse?”

 

 

Segundo Luís Miguel Queirós[3], o seu poema “Notícias do Bloqueio”, tornou-se, nos anos 50 e 60, um verdadeiro símbolo da oposição ao regime salazarista: “Aproveito a tua neutralidade,/ o teu rosto oval, a tua beleza clara,/ para enviar notícias do bloqueio/ aos que no continente esperam ansiosos...”

Mas é no seu último livro, A Ferida Amável[4], que nos aparece porventura o mais belo poema de amor da literatura portuguesa contemporânea.

 

 

Eis parte dele:

 

 

Entras, nas mãos

recebo as mãos: nesse contacto

tudo é recolhido e aberto, as palavras

voam para fora dos papéis pousados sobre a mesa

como se correntes de ar

as invejassem, como se

cada frase fosse uma borboleta

que ao voar alterasse o aspecto das coisas,

o motor

do colorido caleidoscópio em que a paisagem roda

para a moldura da paixão, para

o inefável....

 

 

 

 

 (13-fev-12)

 

 

 



[1] In Boletim da Casa dos Açores do Norte, nº 32, JUN/1992, p. 7

[2] Idem, p. 8

[3]  Público, de 30/JAN/2001

[4] Porto, Campo das Letras, Março de 2000

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